Desde que comecei a trabalhar, estudar mais e me jogar nas minhas próprias loucuras, sempre carreguei a frase: “mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Ela aparecia muitas vezes na minha vida como uma verdade, e, de fato, me fez crescer. Sou grato à jornada que me trouxe até aqui, aos bons caminhos, às pessoas que conheci e aos trabalhos que me moldaram.
Mas sinto que agora o mar está mais turbulento do que nunca. Conforme o tempo passa e vamos nos tornando marinheiros mais experientes, chegam novos mares muitas vezes mais agitados que aqueles que já enfrentamos.
Estou há quase um ano navegando por esse novo oceano desconhecido, com ondas mais altas e tempestades mais violentas. Entre uma agenda e outra, quando a calmaria vem, percebo que não consigo mais aproveitá-la. É como se o estado de alerta nunca desligasse, sempre esperando a próxima onda, o próximo vendaval, sem saber quando ou onde vou atracar.
E eu sei: muita gente daria tudo para estar nesse barco, vivendo essa experiência. Mas não consigo olhar para ela com a mesma felicidade que imaginei um dia. Não anseio mais pelo destino, apenas sigo fazendo meu trabalho.
Talvez o problema seja que, depois de tantas tempestades, eu só consigo pensar nelas. Perdi de vista o porto que um dia desejei. Ainda sigo me tornando um melhor marinheiro, mas, no processo, sinto que deixei escapar um pedaço do meu propósito.
Ainda assim, sei que o mar é feito de ciclos. E que, por mais que agora só veja nuvens e ondas, em algum momento o céu abre. Talvez, quando isso acontecer, eu descubra que, sem perceber, já estava muito mais perto dele do que imaginava.